quarta-feira, 2 de março de 2011

Um Homem Puro - José Elpídio de Santana


UM HOMEM PURO

José Elpídio de Santana
Foi morar no Outro Andar
Lá onde entra sòmente
Quem teve uma vida decente
E soube se comportar!

Conheci Elpídio quando eu ainda era menino, na casa de meu avô Totonho Bernardino, nas Flechas de Itabaiana. Tia Marialurdes  era uma linda moça com evidentes traços de nossa origem tupinambá,  olhos profundos, fronte altiva  e cabelos negros escorridos até o meio das costas. Uma matapoanzeira da melhor semente.  Mal saíra da adolescência. Transpirava tentação.    Elpídio estava no sítio dos Ferreiros, naquele dia, para falar com o pai dessa moça. Pedir que aprovasse seu namoro, queria frequentar a casa!
Ele era mais velho, muito mais velho do que a menina pretendida. Mais velho e com um grande problema. Pelo menos foi o que escutei (será que escutei mesmo?) de meu avô irritado, conversando com mãe Céu (minha avó) na cozinha, enquanto Elpídio esperava impaciente no telheiro. Tivera outra mulher nas Candeias, a  notícia chegara um pouco antes, provocando dissabores.  Tia  Marialurdes correra para o quintal das fruteiras. Estava escondida atrás de uma jaqueira, vigiando, atenta, torcendo para  que seu pai aceitasse, mesmo assim!

Quem sabe Nossa Senhora das Candeias a  protegeu. Ela (Nossa Senhora) é quem cuida com amor de todos os filhos (de sangue e adotivos) desse bonito povoado às margens do rio Jacaracica e que, anos depois, saiu de Itabaiana  para fazer mais bela a cidade  de Moita Bonita.  O que sabemos é que o casamento foi feito. Meu avô  ganhou um genro honrado e nós todos, os sobrinhos nascidos e que foram nascendo, um tio de primeira.

O jovem casal foi morar na cidade de Itabaiana. Na Rua do Beco Novo, na Rua do Saquinho, em casas humildes. Negociando em feiras, vendendo rede, cereais, legumes... Plantando roças nos sítios do povo, cuidando de malhadas. Criando os filhos que nasciam, com muito mais amor do que fartura. Quando eu encontrava Elpídio em algum lugar, ele  me dava muita atenção, mesmo eu sendo ainda menino. Colocava a mão no meu ombro, conversava comigo, fazia-me sentir gente grande.

Certa vez fui à feira de Laranjeiras, eu já era homem feito e morava fora de Sergipe. Fui rever a feira, que conhecera em menino. E bati-me com Elpídio sentado na banca, no mercado. Como o vira há trinta anos antes, o mesmo homem simples, caloroso. Olhou-me admirado e deu-me um abraço.  E ainda vendia redes, ganhando quase nada, mas fazendo honestamente o seu trabalho.  E sendo algumas vezes até, ludibriado por fregueses inescrupulosos, que compravam, diziam depois que não tinham dinheiro e nunca mais voltavam para pagar.
- ”Ele deve ser mais precisado do que eu. Senão, não me enganava! ” - argumentava na sua candura para os filhos, preocupados demais com a manutenção da grande família.

Com a morte de meus avós, Elpídio herdou um pedaço do grande sítio dos Ferreiros. Seu quinhão na herança. Toda manhã, logo cedo, depois do café, ia para lá. Só retornava a noitinha. Não tinha cavalo, não podia comprar. Andava a pé. Na volta para casa, trazia uma trouxa  na cabeça, com frutos de seu trabalho, para os meninos comerem. Macaxeira, batatas, uma abóbora, castanhas assadas, frutas da época. E ao chegar em casa, vendo jogada num canto da sala uma bola couraça rascada...  Chamava os filhos, inquiria e, sabendo a origem, ia com eles até a casa de onde a bola viera. Confirmar a história. Só depois é que se conformava.

Apesar de eu morar fora, sempre o visitei (quando vinha de férias)  na companhia de minha mãe, muito ligada a tia Marialurdes.  Quando o encontrava em casa, me tratava com distinção especial. Eu sentia. Agora, no fim da vida, eu passei a visitá-lo muito mais.  Os filhos trouxeram-no para Aracaju, para facilitar a assistência, já que quase todos moravam na capital. Elpídio já estava muito maltratado pela doença e pela idade. Tinha mais de noventa anos. Estava vivendo acima da terra, mais perto do céu.  Mas em tudo que falava existia a eterna candura e bondade:

- “Tonho, estou aqui agoniado! Meus bichinhos (referia-se talvez a galinhas e cavalo que, finalmente,  possuíra) estão lá sofrendo, precisando de mim. Tenho que voltar para Itabaiana logo. Dar  de comer aos meus bichinhos!”.

- “Está chovendo, e eu aqui preso, nesta cama, doente! Precisava estar limpando o mato, plantando milho, plantando feijão... E as batatas, meu Deus! Vou pedir a Fernandes para me levar amanhã.  Acho que vou estar melhor!”.

- “Minha mãezinha! (passou a chamar a esposa de mãe) não beba não! Cachaça não faz bem. Tanto estraga o organismo como o  bolso. O povo manga da senhora!” -  ele estava pensando  (supõe-se) na mãe verdadeira, que bebia e que falecera quando ele ainda era menino. Quem sabe o tenha marcado sua vida inteira.

Na semana em que faleceu, dois dias antes, quando um  filho chegou para vê-lo, como sempre fazia, Elpídio  o olhou  e falou, choramingando (sempre foi muito sentimental):
- Veio para o meu enterro, foi?
- Não pai, o senhor está vivo  – respondeu o filho.
- Eu, vivo? Não! Eu morri ontem. E meu enterro vai ser daqui a pouco.

E  na hora da morte, que aconteceu na noite do dia 17/02/2011,  cutucou a esposa (que estava acordada ao seu lado), companheira de todos os anos, e falou:
 - Mãe, mãezinha! Eu já vou, viu?  Estou morrendo! Morri!
Virou-se para um lado e morreu mesmo.

José Elpídio de Santana é o pai de uma família ilustre. Dez filhos, alguns doutores, todos honrados, levando hoje uma vida muito mais folgada do que a dele.
Entre os filhos, está Antônio Fernandes de Santana, que é mais conhecido por Antônio Samarone (por ser fanático torcedor do Fluminense, desde o tempo de menino. E em Itabaiana ninguém perdoa, tasca apelido mesmo!).

Antônio Francisco de Jesus
Sobrinho (e escritor).

(Publicado no Jornal da Cidade, em 01/03/2011 e postad na Itnet em 26/02/2011) 

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